O Café História A Bolsa do Café e o Museu dos Cafés do Brasil
A Bolsa do Café e o Museu dos Cafés do Brasil

O mais belo e imponente edifício da cidade de Santos-SP, a Bolsa Oficial de Café de Santos (FOTO), é uma construção em estilo eclético, cujo projeto data do final do século XIX e cujas obras foram concluídas somente em 1922.

Construído no mais rico período de nossa história, tem acabamento luxuoso com materiais importados, como mármores de Carrara e lustres de cristal da Bohemia. Uma cafeteria oferece a oportunidade de experimentar todos os tipos e aromas de cafés.

O prédio abriga, atualmente, o Museu dos Cafés Brasileiro, que apresenta a história da produção e comercialização do café no Brasil e sua influência na cidade, desde a segunda metade do século XIX até os dias atuais, através de fotos, documentos e equipamentos. Um destaque, é a maquete que reproduz o centro da cidade na década de 20, com edifícios históricos ainda existentes.

Na "Sala de Pregões", é possível observar uma "clarabóia" com vitral de Benedito Calixto, representando as riquezas do Brasil colônia, império e república, a lenda de Anhanguera, Brás Cubas, fundador da cidade, e bandeirantes como Fernão Dias e Raposo Tavares. No mesmo salão, três grandes painéis do mesmo autor representam diferentes períodos da história de Santos.
 
A Bolsa Oficial de Café

A partir da segunda metade do século XIX, o café teve um papel fundamental na vida econômica e social do país, principalmente para o Estado de São Paulo que, graças ao ciclo econômico do café, formou praticamente 90% de suas cidades. O café chegou ao país no século XVIII, mas só atingiu sua verdadeira importância ao ser cultivado no Estado de São Paulo e Minas, onde encontrou solo fértil e clima ameno, aliados à proximidade com um centro exportador, Santos.

Para Santos, o café foi o principal fator de desenvolvimento a partir de 1854, uma vez que por lá eram comercializadas e exportadas todas as sacas produzidas no país. O mercado do café profissionalizou-se rapidamente e na cidade instalaram-se inúmeros escritórios para a sua comercialização, armazéns para seus estoques e indústrias de torrefação e embalagem do produto. A mercadoria em estoque era a única disponível para a venda, mas com o aumento explosivo do consumo mundial, os importadores estrangeiros precisavam contar com a mercadoria para todos os meses do "futuro".

Essa mercadoria, que só podia ser comprada na época da colheita, obrigava os torrefadores e exportadores a adquirir grandes quantidades do grão para estoques e suprimento ininterrupto do mercado, criando a necessidade de grandes investimentos e o encarecimento do produto pelos juros acumulados. O comerciante era obrigado a empatar os estoques com o capital disponível e assim surgiram as vendas diretas feitas para o futuro, sem dispêndio de capital. Com esse sistema surgiram também os grandes prejuízos, causados por fatores como a variação do clima, o numerário, a falta de mão de obra, a falta de organização das instituições bancárias, os trustes, etc. Para o comércio santista, foram particularmente amargas as conseqüências desse sistema entre os anos de 1912 e 1914.

Desde 1906 o Poder Legislativo de São Paulo estudava a criação da Bolsa Oficial de Café, aparelho de defesa do comércio sob direta fiscalização do Estado. Pela Lei 1416 de 14 de julho de 1914 foi criada a Bolsa Oficial de Café e a Câmara Sindical dos Corretores de Café de Santos, objetivando um maior controle do comércio do café. A lei foi regulamentada pelo decreto nº 2516 de 23 de julho do mesmo ano e, por ela, todos os contratos de compra e venda de café a termo só seriam válidos quando negociados por um corretor oficial da Bolsa e registrados em Caixa de Liquidação. O presidente da Bolsa era um comerciante nomeado pelo governador do Estado. A Bolsa teria uma comissão de peritos oficiais, contratados por concurso, e somente essa comissão poderia avaliar e classificar o café, fixar diferenças, prejuízos e bonificações nas operações da Bolsa, sempre sujeitas ao seu conhecimento.
 
A inauguração da Bolsa

A Bolsa Oficial de Café foi inaugurada em 2 de maio de 1917, em um salão alugado, na esquina da Rua XV de Novembro com a Rua do Comércio. A lei de criação da Bolsa previa a cobrança de uma taxa de 20 réis por saca de café nas operações a termo e destinava o produto dessa taxa ao pagamento de despesas próprias e à construção de uma sede para seu funcionamento.

O terreno escolhido para a construção do prédio da Bolsa Oficial de Café ficava na esquina das ruas XV de Novembro e Frei Gaspar, próximo ao cais do porto, o famoso "Quatro Cantos", como era conhecido o local desde o século XVIII. O casario decadente existente naquela área foi desapropriado pelo governo e os projetos da obra ficaram a cargo da Companhia Construtora de Santos, sob a direção do engenheiro Roberto Simonsen. A pedra oficial do edifício foi lançada a 27 de abril de 1920 pelo então Governador do Estado, Sr. Altino Arantes, e, em julho do mesmo ano, tem início a limpeza do terreno e a sondagem para o trabalho de fundação. Para a construção do Palácio da Bolsa Oficial de Café foram feitos um empréstimo de 2.000:000$000 (dois mil contos de réis) e o lançamento no mercado de um bônus de 1.000$000 (um conto de réis) com juros de 7% ao ano. A amortização seria dada a partir do 21º ano, sendo que o empréstimo se findaria no prazo de 26 anos. Assim, o governo do Estado cederia os recursos necessários para os juros e amortizações, sempre que fossem insuficientes os recursos da Bolsa.

A 7 de setembro de 1922 era inaugurada a Bolsa Oficial de Café de Santos, com a presença do então governador Washington Luiz. A construção do imponente edifício custou 6.373:315$390 (6 mil e 373 contos de réis). O material de construção utilizado era, em sua maioria, importado da Europa.
 
O edifício

Uma imponente torre de 40 metros de altura traz no topo um belvedere crivado com quatro gênios, que simbolizam a indústria, o comércio, a lavoura e a navegação. Em cada uma de suas quatro faces, um grande mostrador do relógio suíço "Magneta" indicava a hora oficial à grande parte da cidade e do porto. A torre mais baixa, na entrada, tem a cúpula coberta de folhas de cobre e é encimada por um mastro no qual se hasteava a bandeira nacional.

O edifício tem 3 pavimentos. No térreo encontram-se o saguão, a sala de pregões, a secretaria e a sala da presidência. No segundo andar, a galeria, dando vista para o salão de pregões abaixo, a Sala de Classificação de Café e demais dependências. No terceiro pavimento, um luxuoso restaurante, cenário de grandes negociações.

O interior do edifício, totalmente trabalhado em relevo, é decorado com mármores variados, objetos de bronze franceses, vitrais luxuosos e cristais belgas. O destaque fica para o Salão de Pregões, com cadeiras de espaldar alto feitas em jacarandá, onde se sentavam em roda os comissários, durante as seções de pregão. Uma das paredes é decorada com três grandes painéis de Benedicto Calixto, retratando a cidade em três épocas: "Fundação da Vila de Santos em 1545" (na qual o capitão Braz Cubas lê o foral da vila e inaugura o pelourinho no pátio da Casa do Conselho), "O Porto de Santos em 1822" (visto da Ilha Braz Cubas) e "Porto de Santos em 1922" (visto do Morro do Pacheco). Nos quatro cantos de cada quadro, Calixto pintou brasões referentes ao Brasil Colônia, Império e República e suas molduras retratam a fauna brasileira.
 
No teto, outra obra de Benedito Calixto (foto), transformada em vitral pela famosa Casa Conrado, de Conrad Sorgenich, retrata a visão de Anhangüera, "que viu emergir das águas a mão de ouro distribuindo paletas de ouro às mães d'água, como se fossem centelhas de luzes fosforecentes espargindo-se sobre as cabeças de sua população". Dos outros dois lados, gravado com genial concepção, o Brasil Colônia representado pela riqueza de sua fauna e por seus animais selvagens, o Brasil Império, com sua incipiente lavoura e seus animais domésticos e o Brasil República, próspero com suas indústrias e seu comércio organizado. À volta toda, seis retratos de bandeirantes que contribuíram para a grandeza de nossa terra.

Aspectos relevantes das atividades da Bolsa
 
A Bolsa Oficial de Café viveu muitos anos de influência na atividade comercial e econômica do Município, cumprindo à risca os objetivos que determinaram a sua criação. Em setembro de 1924 o Decreto-Lei 12.930 modificou a sua denominação para Bolsa Oficial de Café e Mercadorias, objetivando centralizar e sistematizar as operações de mercadorias em geral, apurar, registrar e divulgar diariamente os preços correntes e a situação do mercado.

A Bolsa teve seu auge entre 1917 e 1929, ano da quebra da Bolsa de Nova York, que lançou praticamente o mundo inteiro em um período de depressão. Para a nossa "República do Café", juntaram-se dois ingredientes explosivos: a superprodução e a queda dos preços no mercado internacional. Para completar a gravidade da situação, os estoques do grão eram elevadíssimos.

A solução do governo federal para a crise foi a queima de estoques para que a falta do produto forçasse a alta dos preços. Diversas propostas foram apresentadas para a queima. A "Folha da Manhã" de 3 de janeiro de 1932 informava sobre experiências do uso de café como combustível nas locomotivas da Central do Brasil: "Partiu um trem de carga com 610 toneladas de peso, utilizando a locomotiva café como combustível. O percurso foi vencido em duas horas e dez minutos, sem quebra de pressão, gastando 2.912 quilos de café."
 
Nas imediações de Santos, milhares de toneladas de café foram incineradas em fogueiras que ardiam durante dias desprendendo uma fumaça aromática - 71.068.581 sacas de café foram queimadas, quantidade que daria para atender o consumo mundial por três anos.

O fechamento da Bolsa e a criação do IBC
 
A partir da grande crise de 1929, as atividades da Bolsa Oficial de Café foram decrescendo. Em 1933 foi criado o Departamento Nacional do Café para controlar a economia cafeeira. Em 1937 a Bolsa de Café foi fechada por tempo indeterminado. Reabriu algum tempo depois, em 1942, mas o comércio do café não se recuperou, ao contrário, acentuou-se ainda mais a sua decadência. Em 1952 foi criado o IBC - Instituto Brasileiro de Café, quando uma nova crise exigiu intervenção estatal. A partir de 1960, um novo fator influi no mercado internacional do café: a criação do café solúvel, que vem transformar as transações.

Na década de 80 o pregão é transferido para a Bolsa de Mercadorias e Futuros de São Paulo. Das atividades originais da Bolsa Oficial de Café, somente funcionava o setor de classificação. Em 1981, o edifício foi tombado pelo Condephaat, preservando-se para sempre o maior símbolo da história econômica de Santos.

Hoje, a Bolsa Oficial de Café é um marco da fase áurea do produto que criou grandes riquezas e patrimônios. Os chamados "barões do café" construíam seus palacetes e mansões na orla, proporcionando beleza à paisagem e colocando as praias entre as mais aristocráticas do mundo naquela época. A riqueza dos santistas se traduzia na expansão urbanística da cidade e na grandeza de seus monumentos.

Por tudo o que o café representa na história da cidade é que os santistas reinvindicaram por longo tempo ao Ministério da Agricultura, proprietária do edifício, o estabelecimento de um Museu do Café em suas dependências. Em 1996 o governador Mário Covas instituiu Comissão Especial integrada por sete comerciantes tradicionais de café coordenados por Eduardo Carvalhaes Jr., afim de estudar projeto para a instalação do museu. As obras de revitalização se iniciaram com a reforma externa e, na parte interna, com a restauração dos murais de Calixto, da sala de pregões, saguão e galerias - o restante permanece fechado. Em 1999, o Museu abriu ao público com festa. Em uma parte do imenso saguão se instalou um café para quem quiser desfrutar a boa bebida proporcionada pelo que foi o nosso "ouro verde".
 
MUSEU DO CAFÉ DO BRASIL

O edifício da Bolsa Oficial do Café passou por restauração, concluída em 1998, realizada com muita competência pelo Governo do Estado de São Paulo. O prédio tornou-se um monumento de grandiosa imponência histórica, oferecendo instalações muito adequadas para o funcionamento do Museu do Café, dentro de uma concepção moderna e versátil. No mesmo ano foi concedido à Associação dos Amigos dos Cafés do Brasil, através do Decreto Estadual n° 43.389, de 18 de agosto de 1998, a Permissão de Uso, com o propósito bem definido de ser instituído o Museu do Café.

A Associação dos Amigos do Museu dos Cafés do Brasil foi, então, constituída pelas principais entidades de classes, torrefadores, produtores, exportadores, comerciantes, corretores e uma gama de associações, jurídicas ou não, do setor cafeeiro, que acreditaram na viabilização do Museu do Café.

A partir da restauração do edifício sede da Bolsa Oficial do Café em Santos, à Associação dos Amigos dos Cafés do Brasil, com o objetivo primordial de instalar, manter, administrar e tornar nacionalmente conhecido o "Museu do Café", desenvolveu o processo de musealização para sua criação, de autoria da Profª Maria Cristina de Oliveira Bruno, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo e após a aprovação do Departamento de Museus do Estado de São Paulo pelo Ofício DT/DEMA nº 328/2000, foi instalado no térreo e primeiro pavimento, que tinha como pretensão apresentar aos visitantes a memória do comércio de café que ocorreu na Cidade desde o século XIX repercutindo nacionalmente.

A partir desta aprovação, a primeira iniciativa implementada foi a Cafeteria que se tornou a principal atração turística do centro histórico santista. Em 22 de julho deste ano, retomou-se as exposições permanente e temporárias, a mostra do acervo, ainda em captação, Centro de Preparação de Café, e ainda, foi inaugurada uma sala de vídeo onde os visitantes assistem filmes sobre café.
 
Palácio do Café


A Bolsa Oficial de Café, em Santos, traduzia-se como arquitetura típica do ecletismo que caracterizou as mais importantes obras do período. Estilo e volumetria empregados ofereceram resposta compatível à monumentalidade almejada pelos idealizadores, que, durante sua construção, não pouparam esforços nem recursos para aquisição de materiais de acabamento de alta qualidade. Cúpulas de cobre, grandes figuras escultóricas, vitrais, mosaicos de mármore, robustas colunatas de granito são expressões de riqueza e prosperidade do ciclo cafeeiro no país e, ao mesmo tempo, representam a materialidade do desejo de converter o edifício da Bolsa no "Palácio do Porto de Santos”.
 
Nos dias atuais, a imponência arquitetônica da edificação ainda repercute admiração no cidadão que transita pelo centro. Apesar do adensamento urbano ocorrido na região nas últimas décadas, a Bolsa se mantém como o edifício mais suntuoso e emblemático da Baixada Santista. A elevada torre do relógio, com mais de 40 metros de altura, se impõe, à frente do porto, como importante referência paisagística e temporal da cidade.

Caráter simbólico e expressão arquitetônica são atributos solicitados a uma edificação dessa natureza, inerentes desde a vocação - local de concentração dos negócios cafeeiros do país - à concepção final da obra. Necessidade e responsabilidade que talvez expliquem as mudanças sucessivas do projeto, três ao todo, que objetivaram aprimoramentos necessários até alcançar o escopo almejado. Preocupações que sensibilizaram a Câmara Municipal de Santos, que suspendeu as limitações legais impostas pelo Código de edificações vigente para permitir obter resultados formais e estéticos satisfatórios.